Com o segundo turno presidencial em marcha, é necessário um balanço, ainda que resumido, do primeiro turno. Algumas pessoas, talvez tomadas pelo entusiasmo do “vira voto”, colocaram em dúvida a vitória do bolsonarismo nesta eleição. A vitória eleitoral do bolsonarismo em 2026 me parece inequívoca em todas as frentes.
É preciso considerar que Jair Bolsonaro, que seria o candidato de oposição, está preso desde novembro de 2025 e, desde julho de 2026, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, está praticamente incomunicável: sem redes sociais, sem manifestos por terceiros e com visitas restritas. Sua imagem, inclusive, não pôde ser utilizada na campanha eleitoral. Eduardo Bolsonaro perdeu o mandato de deputado federal em dezembro de 2025 e vive nos Estados Unidos desde março de 2025; em outubro, com o trânsito em julgado da condenação, o STF expediu mandado de prisão contra ele e cancelou seus passaportes, o que o deixa impedido de retornar ao país. O candidato bolsonarista para essas eleições é Flávio Bolsonaro: visto como político de temperamento mais moderado, mas sem o carisma e a verve política do pai. O balanço dos resultados precisa, portanto, encarar que o principal nome do bolsonarismo não pôde disputar a eleição nem incidir sobre ela, e que o sucessor deixa a desejar em vários aspectos que costumam ser o ponto forte do bolsonarismo diante do eleitorado.
Além disso, apesar de o bolsonarismo estar disperso em diversos partidos de direita e de ter apoiado candidatos que não seriam bolsonaristas de primeira hora, o Partido Liberal (PL) conseguiu aglutinar e consolidar candidaturas que não foram contestadas por nenhuma outra força da direita.
Governadores
Já no primeiro turno, o bolsonarismo obteve uma vitória expressiva nos principais estados da federação: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi reeleito com 62,65% dos votos válidos. Em Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos) venceu com 55,4% dos votos. No Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL) superou a metade dos votos válidos, com 50,88%, depois da retotalização determinada pelo TSE, que anulou a candidatura de Anthony Garotinho. Somando só esses três estados, o bolsonarismo passará a governar cerca de 51% do PIB nacional e 40% da população.
O bolsonarismo também elegeu os governadores de todos os estados do Sul: Sérgio Moro (PL) no Paraná, com 50,1% dos votos; Jorginho Mello (PL), reeleito em Santa Catarina, com 69,98%; e Luciano Zucco (PL) no Rio Grande do Sul, com mais de 58% dos votos. Considerando Sudeste e Sul, são cerca de 68% do PIB nacional e 55% da população: boa parte da produção industrial e dos operários do país.
No primeiro turno, o PL já garante seis governos (Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima e Rio de Janeiro), e outros cinco estados ficarão com siglas bolsonaristas: São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso pelo Republicanos; Mato Grosso do Sul e Paraíba pelo PP. O PT, por sua vez, ficará com três governos, todos no Nordeste: Ceará, Piauí e Bahia. Excetuando o Nordeste, o bolsonarismo obteve entrada clara em todas as demais regiões do país. E mesmo nos estados em que houve vitória do chamado centrão (partidos como PSD e MDB), tudo indica que não governarão em oposição ao bolsonarismo.
Senadores
A vitória do bolsonarismo no Senado foi ainda mais eloquente. Sozinho, o PL conquistou 19 vagas e passa de 15 para 28 senadores, a maior bancada de início de legislatura desde 1988. Com isso, a bancada bolsonarista deve controlar 44 senadores dos 81 assentos. Isso já é suficiente para eleger o presidente do Senado e fica muito perto dos três quintos (49 votos) necessários para aprovar emendas à Constituição e dos dois terços (54 votos) exigidos para o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Além disso, o partido elegeu bolsonaristas icônicos: Michelle Bolsonaro (PL) no Distrito Federal e Carlos Bolsonaro (PL) em Santa Catarina.
Deputados federais
O PL elegeu 121 deputados, quase um quarto das 513 cadeiras da Câmara, e terá a maior bancada. Passa de 98 para 121; o PT, de 65 para 70. Serão, respectivamente, a primeira e a segunda maior bancada entre os partidos.
Mesmo somando toda a esquerda, a federação PT-PCdoB-PV elegeu 88 deputados; com os 15 da federação PSOL-Rede, chega a 103. Muito longe do que o PL conseguiu sozinho: 121.
Algumas considerações
É difícil saber de antemão a coesão que o bolsonarismo terá para o próximo ciclo e o quanto ele resiste às pressões institucionais que estão por vir. A vitória expressiva nas eleições não garante que a coalizão em torno do bolsonarismo não se desfaça já nas primeiras crises.
Contudo, não é possível tampar o sol com a peneira. Independentemente do que ocorrer no segundo turno presidencial, o bolsonarismo se consolidou como uma força política vitoriosa em 2026. É difícil, para não dizer impossível, encontrar um ângulo razoável que apresente o bolsonarismo em derrota ou em retrocesso. É verdade que isso não garante o controle completo do regime político, mas essa é uma outra questão.
A situação que precisa ser enfrentada é a política que nos trouxe até aqui. A explicação da vitória eleitoral tem pouco a ver com os predicados do bolsonarismo. Mas tem uma dose significativa dos erros da política conduzida pela esquerda nas últimas duas décadas e, em particular, nos últimos quatro anos. É essa política e seu esgotamento que precisam ser examinados com cuidado daqui para frente.
