A manipulação da religião para fins eleitorais é condenável ou vale tudo para ganhar uma eleição? A esquerda parece mudar de resposta conforme a distância das urnas. Mas, além do oportunismo, há outra questão: essa desmoralização consegue sequer cumprir seus tacanhos objetivos eleitorais?
Uma cusparada iconoclasta
Lembro como se fosse hoje de uma conversa num café com colegas sobre o entusiasmo com que a esquerda havia elevado Madonna a ícone revolucionário. A performance da cantora fazia alusões a símbolos religiosos. Com as eleições ainda longe dos radares e apoiada na perseguição do ministro do STF Alexandre de Moraes ao bolsonarismo, a esquerda se sentia por cima da carne seca. Estava pronta para dar aquela cusparada na cara de uma boa parte da população religiosa.
Uma das pessoas à mesa era uma jovem católica. Como milhões de fiéis, ela acordava todos os dias da Quaresma às quatro da manhã para acompanhar a oração do Santo Rosário conduzida por Frei Gilson. A esquerda confrontava, sem nenhuma necessidade, a religião de milhões de pessoas.
O crescimento das igrejas evangélicas era visto como a expansão de um celeiro de bolsonaristas. A população religiosa passava a ser tratada como adversária, e o entusiasmo com aquela provocação deixava o recado bem claro.

Figure 1: Show de Madonna em Copacabana, no Rio de Janeiro, em 4 de maio de 2024.
Eleições de 2026
Na campanha eleitoral de 2026, a esquerda impulsionou a notícia de que Flávio Bolsonaro (PL), se eleito, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Se fosse verdade, seria uma afronta direta aos católicos. A aposta era enfraquecer, ou até romper, a base mais religiosa e conservadora do bolsonarismo.
Em meio ao desespero eleitoral, a esquerda começou sua própria campanha com a santa católica. Não bastava atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro: era preciso aparecer como defensora da santa. Durante um ato político na Praça da República, em Belém do Pará, Lula recebeu do então governador Helder Barbalho uma estatueta de Nossa Senhora de Nazaré e a ergueu diante do público.

Figure 2: Lula levanta a santa em Belém do Pará, em 28 de setembro de 2026.
Ao longo dos últimos anos, a esquerda criticou o bolsonarismo pela manipulação da fé para fins eleitorais, sobretudo pela proximidade de seus candidatos com as igrejas evangélicas. Em diversos momentos, a crítica ultrapassou a disputa política e se voltou contra as próprias pessoas religiosas.
Agora, no desespero das eleições, a esquerda abraça ainda mais descaradamente aquilo que condenava. O cálculo parece simples: se a manipulação da fé foi uma das chaves das vitórias que o bolsonarismo vem colecionando, basta adotar a mesma estratégia.
Essa avaliação me parece superficial e equivocada. Ela reduz a ascensão do bolsonarismo, o crescimento dos evangélicos e a proximidade do bolsonarismo com as igrejas evangélicas a um truque eleitoral que a esquerda poderia copiar.
PSTU e o voto crítico, mas nem tão crítico assim
Loucura pouca é besteira. No dia 12 de outubro de 2026, o PSTU também saiu em defesa da santa. Em meio ao segundo turno, tentou pegar carona na campanha e acrescentou uma dose cavalar de identitarismo. Segundo eles, a esquerda deveria resgatar a “tradição”.
No texto de Hertz Dias divulgado pelo Opinião Socialista, o argumento aparece assim:

Resgatar nossas tradições históricas também tem a ver com enfrentar a extrema direita e a burguesia brasileira
HERTZ DIAS | 'O caso Nossa Senhora Aparecida
— Opinião Socialista (@opsocialista) October 12, 2026
Resgatar nossas tradições históricas também tem a ver com enfrentar a extrema direita e a burguesia brasileira' pic.twitter.com/Fl7buPwWBP
O verniz identitário serve para justificar o mesmo uso eleitoral da religião. O voto é crítico, mas a crítica não chega a atrapalhar a campanha.
Por fim…
Enquanto as eleições estão distantes e a esquerda sente a brisa da vitória por estar no governo, combate a religiosidade da população. Às vésperas da votação, com o bafo da derrota no pescoço, assume a pose religiosa e se torna defensora da santa.
Como essa falta de direção aparece aos olhos da população? Para quem está distante das pessoas religiosas, a manipulação política da religião pode parecer um truque eficaz. Para a parte mais religiosa da população, porém, a troca do desprezo pela devoção de campanha soa como uma dupla cusparada na cara.
A esquerda aprofunda sua desmoralização. Depois de atacar a fé popular, tenta usá-la para conseguir votos e apresenta uma política vulgar, indistinguível da de qualquer outro partido burguês.
