A final da Copa do Mundo de futebol, no dia 19 de julho, foi o desmascaramento da fraude no esporte mais popular do mundo. Uma partida vergonhosa, mas reveladora.

A tentativa de manter a fraude na Copa do Mundo, com inúmeras faltas não marcadas e gols anulados de maneira controversa, foi evidente, para dizer o mínimo. A seleção argentina entrou em campo sem a intenção — e mesmo sem as condições — de jogar futebol. Aquilo que a imprensa propalava como demonstração de raça mostrou-se algo muito distante do futebol. Em alguns casos, estaria mais próximo da luta livre.

Figure 1: Jogador argentino, Nicolás Tagliafico, pula nas pernas do jogador da Espanha, Lamine Yamal. Um verdadeiro golpe de luta livre, sem receber cartão.

Figure 1: Jogador argentino, Nicolás Tagliafico, pula nas pernas do jogador da Espanha, Lamine Yamal. Um verdadeiro golpe de luta livre, sem receber cartão.

A promoção e o favorecimento que a FIFA vem fazendo da seleção argentina e de seu principal jogador, Lionel Messi, não foram suficientes para garantir o título.

Também fica clara a cumplicidade da imprensa esportiva, sócia no empreendimento de vender Messi e o “futebol” argentino ao público norte-americano. Talvez esse tipo de futebol, que pouco se distingue do rúgbi e do chamado futebol americano, seja o máximo que os norte-americanos consigam almejar.

É preciso dizer que, se o Brasil estivesse nesta final contra a seleção da Espanha, talvez perdêssemos o jogo e o título — digo talvez, porque ainda se trata de um jogo de futebol. Contudo, mesmo perdendo, é certo que o público que ao final deixasse o estádio, e os mais de 1,5 bilhão de espectadores mundo afora, presenciariam um jogo de futebol no melhor sentido da palavra.

Para aqueles que gostariam de substituir o futebol brasileiro pelo futebol argentino, basta observar que, no intervalo, apareceram Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno e Pelé. Três jogadores brasileiros, considerando que o Brasil nem mesmo estava na final. Contudo, a presença dos brasileiros é incontestável; ninguém se atreveria a dizer que esses jogadores não deveriam estar no intervalo da Copa.

Figure 2: Pelé é exibido no telão durante o intervalo da final da Copa do Mundo.

Figure 2: Pelé é exibido no telão durante o intervalo da final da Copa do Mundo.

A Copa do Mundo de Futebol de 2026 é marcada pela internet

Talvez minha memória esteja me traindo, mas não me lembro das últimas Copas do Mundo terem sido tão marcadas por uma montanha-russa emocional e por tanta polêmica. Por algum motivo, as edições de 2018, na Rússia, e de 2022, no Catar, passaram por mim de forma bem mais tranquila. Já esta Copa me pareceu bem mais intensa e, em vários aspectos, mais relevante — em grande parte, graças à internet.

Nas Copas anteriores, a maioria dos brasileiros via apenas o que a televisão decidia mostrar. Acompanhavam-se os jogos da seleção, recebia-se um resumo dos demais confrontos e, no dia seguinte, vinha uma leitura pronta dos fatos. Para discordar, era preciso buscar imagens por conta própria ou recorrer à própria memória.

Em 2026, isso mudou. A CazéTV comprou os direitos de todos os 104 jogos no YouTube. A Globo ficou com 55, e o SBT com uma parte deles. A emissora digital é a única que exibe a Copa inteira. Além disso, seu público também é muito mais jovem: 77% dos espectadores têm menos de 44 anos1.

Isso é um golpe, ainda que parcial, no velho monopólio da transmissão esportiva. A Globo ainda tem força, alcança dezenas de milhões de pessoas e mantém grande parte da audiência dos jogos do Brasil. Mas deixou de controlar sozinha aquilo que o público pode assistir. E, quando o público vê, a história não depende mais somente do narrador, do comentarista e das manchetes do dia seguinte.

O ataque à CazéTV, relacionado às propagandas de sites de apostas, mostrou o quanto isso incomodou e como será difícil manter o monopólio da transmissão do futebol. Foi preciso organizar uma campanha contra a emissora digital.

Deputados, como Tabata Amaral (PSB/SP)2, surgiram como arautos da moralidade, endossando um ataque que soou, em certa medida, exagerado e mal articulado. Vários parlamentares de esquerda entraram na mesma onda e passaram a pedir que a CazéTV suspendesse a exibição de anúncios de apostas ao longo da programação. Mesmo com a investigação do Ministério Público aberta contra a emissora por publicidade de sites de apostas durante a Copa3, o público parece não ter se incomodado tanto: durante as transmissões, a audiência aumentou e quebrou recordes de aparelhos conectados no YouTube.

É por isso que os jogos da seleção argentina se tornaram um assunto tão controverso, para dizer o mínimo. Há um clima crescente, referendado por imagens, vídeos e análises que circulam logo após as partidas, de que a seleção argentina recebe um tratamento de exceção ao longo de toda a Copa do Mundo, até o jogo final. Não se trata de uma reclamação que aparece somente depois de uma derrota brasileira, de inveja ou de simples provocação das torcidas oponentes. É uma desconfiança que milhões de pessoas estão construindo ao assistir aos jogos completos.

A partida contra o Egito é um exemplo. A imprensa apresentou o jogo como uma “virada histórica” da Argentina: 3 a 2, depois de o Egito abrir 2 a 03. Mas o torcedor que viu o jogo inteiro pôde perceber, em tempo real, as falhas da arbitragem e as decisões discutíveis. A internet devolveu ao público o direito de olhar a sequência dos fatos e tirar suas próprias conclusões. Agora, o lance é recortado, comparado com outros jogos e debatido por torcedores de vários países. A construção da farsa de que a seleção argentina de futebol é uma equipe extraordinária encontrou, pela frente, a internet.

Com a televisão e os jornais, é muito mais fácil ignorar o sentimento popular. Já com a internet e as redes sociais, é muito mais difícil colocar tais manobras para debaixo do tapete. Obviamente estão tentando 4, mas é uma tarefa muito difícil de realizar com a atual abertura da internet – veremos o quanto essa liberdade dura.

Poucos minutos após cada jogo da Argentina, surgem inúmeros vídeos, clipes e análises sobre a partida, mostrando a manipulação e o beneficiamento. Se, por um lado, não dá para dizer que todas as análises estão corretas ou que todas as estatísticas apresentadas são confiáveis, por outro, é fácil perceber o clima geral que se estabeleceu em torno da Copa do Mundo e da gestão da FIFA.

Isso tem um grande impacto sobre os jovens. Ainda na infância e na adolescência, é que construímos nossos ídolos e escolhemos o tipo pelo qual torcer. O público em geral, e principalmente a juventude, está acompanhando todo o esforço para a criação artificial de ídolos rentáveis. O mercado diretamente ligado ao futebol é um negócio bilionário 5 e movimenta centenas de milhões de torcedores em todo o mundo.

A questão que surge em nosso tempo, sobre o controle da internet e a restrição da juventude na rede, penetra também na questão do futebol. E essa Copa do Mundo ajudou a dar contornos ainda mais claros a esse problema. Imagino que, daqui para frente, se intensificarão as campanhas de proteção da juventude, principalmente para que não possam ver nem discutir esse tipo de manipulação no esporte.

Referências