Em alguns vídeos do professor Eric Mazur, ele explica como surgiu a abordagem hoje conhecida como peer instruction. Ele compartilha uma anedota pessoal:
Em vez de apenas falar, eu os questionava. Lembro-me de uma experiência em que completei uma explicação em dois minutos, fiz alguns esboços no quadro e citei a Terceira Lei de Newton para explicar que duas forças eram iguais. Pude ver imediatamente pelas expressões dos meus alunos que eles estavam confusos.
Tentei uma explicação diferente, adicionei equações e, após o que pensei ser uma explicação absolutamente brilhante, o quadro estava coberto de desenhos. Voltei-me para a turma e eles pareciam ainda mais confusos. Eu não sabia o que fazer, mas sabia que metade dos alunos havia acertado a resposta em um teste anterior.
Então, eu disse a eles: “discutam isso entre vocês”. O que aconteceu em seguida foi notável: a sala de aula explodiu em caos e eles se esqueceram de mim. Em apenas dois minutos, eles descobriram a resposta correta.
Isso acontece porque, se um aluno (como João) entende o conceito, ele consegue explicar para outra aluna (como uma Maria) de uma forma que o professor não consegue. Maria provavelmente entende o que João diz porque ele acabou de aprender aquilo; ele ainda sabe quais são as dificuldades de um iniciante. Já o professor aprendeu aquilo há tanto tempo que nem consegue imaginar por que alguém não entende.
É o que meu colega Steven Pinker chama de “a maldição do conhecimento”.
Veja o vídeo completo:
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Embora essa anedota se repita em diversos vídeos e entrevistas do Prof. Erick Mazur, o argumento sobre o funcionamento da iniciativa não aparece de forma equivalente nos artigos e manuais que, posteriormente, embasam essa abordagem. Claro que isso se refere aos materiais que tive a oportunidade de ler; uma busca mais ampla pode me provar o contrário.
O argumento de que estudantes que acabaram de aprender o conteúdo teriam vantagens no ensino em relação ao professor que ministra a disciplina precisa ser examinado com mais cautela. Embora seja interessante, não me parece a explicação adequada para o que vem ocorrendo.
Uma primeira questão envolve o papel do professor em sala de aula, especialmente no momento em que constata que as explicações iniciais não estão atingindo os objetivos de aprendizagem. As dificuldades de aprendizagem são bem documentadas e deveriam orientar o planejamento do docente. Colocar a responsabilidade pelo ensino no estudante que acabou de aprender o conteúdo não me parece um bom meio para evitar o planejamento do ensino e a experimentação de novas estratégias. A chamada “maldição do conhecimento” deveria ser contornada por meio de um bom planejamento do ensino.
A origem das dificuldades de aprendizagem e as estratégias para superá-las são pontos críticos do planejamento do ensino. O estudante que acabou de aprender o conteúdo é improvável que tenha condições de avaliar tais dificuldades e de criar estratégias para enfrentá-las. Além disso, se nem mesmo o professor está disposto a pensar e planejar as estratégias de ensino adequadas, por que o estudante — que possivelmente não se tornará professor e pode não estar interessado nas dificuldades de aprendizagem do outro — estaria preparado para assumir esse papel?
Parece-me que o argumento geral repousa, de um lado, em uma certa ingenuidade sobre os processos de aprendizagem e, de outro, em uma subestimação da complexidade da atividade docente.
A dinâmica de discussão entre pares nos grupos parece ser bem mais complexa do que a apresentada. As formas pelas quais ocorre a aprendizagem em grupo e a interação entre pares não devem seguir um caminho tão simples.
