Recentemente, foi publicado na revista “Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências” um editorial abordando o uso da inteligência artificial generativa (IAGen) na pesquisa em educação em ciências. Com o objetivo de convidar a comunidade para um diálogo aberto e crítico, os autores levantam diversos pontos que merecem uma análise cuidadosa. Dentre eles, chama a atenção uma crítica que, inicialmente, poderia parecer lateral, mas que serve como ponto de partida para problematizar o modismo na pesquisa educacional.
Os autores afirmam que:
Ainda em nossa prática profissional, observamos que pessoas pesquisadoras têm voltado sua atenção quase exclusivamente ao uso dessas ferramentas como objetos de pesquisa. Isso tem deixado em segundo plano outras Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação, como a realidade virtual e a realidade aumentada, que são importantes para a educação científica. Essa mudança de foco, puxada pelo entusiasmo em torno das novas “inteligências artificiais”, pode mexer de forma significativa nas linhas de pesquisa da área, favorecendo o que está em alta no momento. Com isso, corre-se o risco de deixar de lado investigações importantes que já vinham sendo feitas com outras tecnologias. Ao seguir modismos, a pesquisa pode acabar ficando mais superficial e menos diversa, o que enfraquece o avanço da área a longo prazo. Assim, o fenômeno da obsolescência de tecnologias acompanha a lógica da redução da relevância dos próprios objetos de pesquisa. (Azevedo & Santos, 2025, pp. 5–6)
A pesquisa sobre inteligência artificial generativa poderia deslocar ou mesmo secundarizar outros temas relevantes da pauta de investigação. Apesar de ter alguma dúvida quanto à importância de temas como realidade virtual e realidade aumentada para o ensino de ciências. Sem evidências específicas é difícil afirmar que esses fenômeno esteja realmente ocorrendo. Talvez os autores partam do princípio de que a atenção e o esforço de pesquisa são recursos limitados, de modo que a emergência de um novo tema necessariamente implica o decréscimo de investigação em outros temas.
Contudo, a predominância das pesquisas sobre inteligência artificial generativa precisaria ser demonstrada para sustentar qualquer preocupação nesse sentido. Além disso, mesmo que essa premissa seja verdadeira, os prejuízos específicos ainda não me são claros. O que exatamente perderíamos se a comunidade científica reduzisse o foco em tecnologias como a realidade virtual e realidade aumentada? Essa questão ainda carece de maior clarificação.
A crítica brevemente apresentada poderia, na verdade, estar direcionada à pesquisa educacional de modo mais geral, que frequentemente se mantém presa a modismos. O caso da inteligência artificial generativa parece ser apenas um exemplo recente de um fenômeno que permeia diversas áreas da pesquisa em educação, com maior ou menor intensidade, dependendo da subárea e do momento histórico. Nesse sentido, a questão do modismo poderia deixar de ter um caráter de crítica e adquirir uma condição de constatação.
Se por um lado, o fenômeno do modismo na pesquisa educacional representa um possível obstáculo ao desenvolvimento científico, por outro lado, ele reflete o grau de engajamento dos pesquisadores com questões sociais candentes. Assim, aquilo que pode ser visto como uma limitação ou prejuízo também reflete uma sensibilidade social que é, muitas vezes, necessária na produção acadêmica.
É difícil imaginar que as pesquisas educacionais, especialmente as de educação em ciências, possam ignorar tais questões sociais presentes e discutidas em diferentes esferas da sociedade, sem que isso imediatamente gere críticas relacionadas ao isolamento da academia. A crítica de que a pesquisa educacional não consegue fornecer respostas significativas aos problemas sociais (respostas, e não necessariamente soluções) tem sido recorrente em diversas análises críticas à produção acadêmica, inúmeras vezes com alguma razão.
Por fim, a ideia de que o fenômeno do modismo na pesquisa educacional possa ser analisado de forma isolada, especialmente no caso da inteligência artificial generativa, parece pouco razoável. Também mantenho certo ceticismo em relação à magnitude desse fenômeno e à sua suposta nocividade em comparação com outros modismos que marcaram a história da pesquisa em educação.
